
Em uma parte minha rotina dos dias de semana - acordar às 6:00 da manhã, ir à escola e regressar - passo todos os dias sobre uma passarela que do metrô utilizo para chegar em meu bairro, e todos os dias eu passava por ela, pensando em logo chegar em casa, almoçar e fazer as coisas que deveria. Todos os dias eram assim, minha "caminhada" de volta é demorada e cansativa, isso me estressava certas vezes e desejava sempre passar o mais rápido por aquela passarela.
A visão de cima da passarela é a de uma avenida, sempre muito movimentada, onde há um semáforo bem perto. Estava caminhando, era uma sexta-feira, meus motivos pra chegar em casa estavam ainda mais fortes, mas aconteceu algo comigo naquele dia. Desde que tinha me levantado eu observava cada coisa com mais atenção. Minha mãe que sempre se levanta no meu horário, apenas para me desejar um bom dia e me oferecer um café-da-manha, que nem sempre tomo. Os alunos do colégio, os grupos, as "panelinhas", os mais acanhados, os extrovertidos e os professores, cada um com um jeito de ensinar.
Ao meio dia e meio minha aula daquela sexta feira havia acabado e eu tomei o rumo de casa, no primeiro ônibus que pego passei o tempo todo calada, mesmo com alguns colegas por perto, alguns deles perguntaram o motivo do meu silêncio, mas nem mesmo eu conseguia explicar, parecia que só estava disposta naquele dia à ouvir e observar, como se tivesso perdido a fala, parecia ter só expressões faciais.
Depois de descer do ônibus, já no metrô, eu observava pessoas que falavam ao telefone, pessoas atrasadas, pessoas tristes, com raiva e também pessoas que olhavam pela janela, certamente pensando algo, que eu jamais adivinharia.
Certo tempo depois havia chegado à passarela, estava eu lá, com uma mochila cheia de livros e cadernos, num dia de Sol muito quente e comecei a andar...
No meio da passarela eu havia percebido que o semáforo havia acabado de fechar, então eu fixei os olhos na avenida, ainda andando e comecei a observar...
Tinham carros nas três pistas da avenida, mas o que mais me chamou a atenção foram os motoqueiros. Eles passam entre os carros como se estivessem realmente "costurando", um termo muito conhecido para esse tipo de situação. E quanto mais o tempo passava, mais os motoqueiros chegavam, um atrás do outro, passano entre os carros para chegar até à faixa de pedestres e esperar junto de todos o semáforo acender a luz verde.
Foi então que sorrí e axava graça de toda aquela situação.
Percebi que muitas vezes somos como os motoqueiros, estamos com pressa, passamos de qualquer jeito entre outras pessoas ou situações e quando chegamos lá na frente, temos que esperar como todos os outros. Foi exatamente o que me veio à cabeça, imaginar alguns daqueles motoqueiros tentando chegar o mais próximo possível da primeira fileira antes do sinal com o intuito de ser mais rápido e, na verdade, para muitos deles, não adiantava de nada e TODOS teriam de esperar.
Por mais que façamos de tudo para sermos mais rápidos ou melhores, nem sempre, estamos em vantagem, mas sim iguais, todos têm de esperar um "semáforo" na vida uma vez, e ele pode vir de várias formas. Era possível também imaginar alguns motoristas de carro reclamando dos motoqueiros, o que no final, também não adianta de nada.
E eu...bom, eu estava lá em cima, vendo e imaginando isso tudo. O quão engraçado é o ser humano e de uma capacidade incrível.
Mas, como sempre, eu não podia ficar alí parada, embora fosse minha vontade, pois os sinais já estavam abertos e aqueles motoqueiros e motoristas já estavam longe e o tempo havia passado, eu estava no mesmo lugar, tinha que ir embora. E fui.
Fui imaginando as inumeras vezes que sinais se fecharão e abrirão em vários lugares do mundo e que pode ter, em cada um deles, uma pessoa pra observar.
Leticia Leão
